Leia o artigo “O meu trem da memória” do conselheiro Inaldo da Paixão (TCE-BA)

Inicio este artigo colocando, nos trilhos da lembrança, esta homenagem à canção “O trenzinho do caipira”, uma das mais belas composições do cancioneiro popular brasileiro. A música de Heitor Villa Lobos, com letra de Ferreira Gullar, pincela a viagem poética pelo Brasil profundo: “Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade e noite a girar / Lá vai o trem sem destino / Pro dia novo encontrar / Correndo vai pela terra / Vai pela serra / Vai pelo ar (…)”.

O cenário musical nos envolve com a memória afetiva das linhas ferroviárias do país. Mas algo me punge nessa atmosfera bucólica, principalmente no momento em que o mundo vive tantas incertezas. Com uma ponta de melancolia, leio que, após mais de 160 anos em atividade, o trem do subúrbio soteropolitano apitou pela última vez, na beira do mar, no dia 13 de fevereiro de 2021. Dois dias depois, foram iniciadas as obras do VLT do subúrbio, modal que substituirá os antigos trens da linha Calçada-Paripe.

Entendo ser prudente dar destaque ao “novo”, desde que o “antigo” sirva de base para os avanços na mobilidade urbana. O trem mais antigo e extenso do mundo, ainda em atividade, é o do metrô de Londres (1.863), que passou por diversas reformas e ampliações de linhas. Para quem conhece alguns dos sistemas ferroviários e metroviários do Brasil e do mundo, não é difícil perceber que havia opções para a manutenção dos trens suburbanos, desde que tivessem sido promovidas reformas, ao longo do tempo, que garantissem a união de suas características originais com tecnologia e conforto.

Durante a minha jornada, desde menino até aqui, testemunhei o descaso das administrações com o transporte público no país, o que muito contribuiu para o sucateamento das ferrovias. Em verdade, o que realmente fez o sistema descarrilar foi a inversão de valores e o jogo de interesses políticos. Entretanto não entrarei no mérito dessa decisão em relação ao novo modal de transporte, já que, mesmo na condição de escritor, não devo olvidar a condição de julgador.

Mas voltemos à seara poética. Lembro-me de que muito já falei dos trens em artigos diversos. Aproveitei os espaços para rememorar várias músicas sobre o tema. E, nesse instante, lembro-me, de imediato, de um dos maiores artistas desse estado, um mestre em ferreomodelismo: o nosso Edson Coyote. Especialista em maquetes de trens, imagino o quanto ele ficou triste quando viu o trem do subúrbio fazer sua última viagem. Decerto, todo homem tem um Ferrorama em seu sonho de menino. Sim, porque o movimento do trem é o maior coadjuvante da poesia do olhar.

Lá vai o trem. Lá se vai um sonho em cada vagão. O trem parou, mas o hiato me traz as melhores lembranças. Partindo da Calçada, começava o exercício de contemplação da cidade-península entre as estações de Santa Luzia, Lobato, Almeida Brandão, Itacaranha, Escada, Praia Grande, Periperi, Coutos e Paripe. No ar, o cheiro de umbu, ciriguela, manga e o grito dos vendedores ambulantes apregoando suas mercadorias (Olha o picolé Capelinha!). Levado pelos trilhos, chacoalhava o bravo povo trabalhador do subúrbio. Quantas histórias, quantas vidas, quantos amores foram transportados no trem da Bahia and San Francisco Railway Company? Essa é a minha maior memória.

Ainda bem que, nesta vida, nem tudo são espinhos. Fiquei muito contente ao saber que uma parte dos trens será reservada ao memorial ferroviário, a ser instalado na Calçada. Uma justa homenagem a esse meio de transporte que, por mais de um século, serviu à população de Salvador. Um bom exemplo disso deu a cidade de Curitiba ao criar o Museu Ferroviário no Shopping Estação, um belo prédio onde funcionou a Rede de Viação Paraná-Santa Catarina (Curitiba). Que o memorial ferroviário da Calçada conte bem a história dos trens e do nosso povo.

Em tempos de tanta descrença e intolerância, de tantas insanidades e perdas, não podemos perder mais essa memória. Termino aqui esse artigo com um bilhete de meia entrada, o bilhete de um menino sonhador, seguindo os trilhos da existência com um sonho de liberdade: “Cantando pelas serras do luar / correndo entre as estrelas a voar / no ar, no ar, no ar…”

*Inaldo da Paixão Santos Araújo é mestre em Contabilidade. Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Professor. Escritor.

inaldo_paixao@hotmail.com

Publicado no Jornal Tribuna da Bahia

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